Se não suspeito múltiplas cores para a Verdade, destruo a Vida declarando-a. O símbolo da palavra não pode sequer contar as estrelas. Somente serve para se extraviar descrevendo. Esse extravio livre também é o Caminho.
(Escrito por Monja Guerrillera)
“Ao ritmo das palavras aprendi a contar estrelas,
caminhar deixando pegadas para saber regressar?”
caminhar deixando pegadas para saber regressar?”
Martha Gómez
Ilustríssima, arrisca atenção: Há muitos anos vi um homem e, portanto, muitos homens, todos variáveis embora me houvessem parecido um só, que jurou pela chuva e pelos mortos que um sistema teológico deveria ser útil e utilitário para afirmar nas igrejas cristãs a verdade da mensagem bíblica. Eu o conheci naquela noite da qual soubeste mais detalhes em outra ocasião. Ele estava frente a frente com seu próprio manifesto, cotovelos sobre uma mesinha de bar campeiro, o mais longe possível da cidade, de lado para uma janela, sendo para mim uma sombra humana à contraluz de uma tormenta[1].
E vê que, mesmo sem interesse de ouvi-lo, entendi parte do que disse. Confio que tu não o interpretarás como benefício da parte do céu, como se eu passeasse pela vida crendo-me a mais agraciada e exemplar por havê-lo intuído, de forma que o digo sem rodeios: este homem jurava que um sistema teológico deveria servir para marcar em linha reta o guia doutrinal para as igrejas cristãs, precisamente porque sabia que a vida não possui um único traço senão uma multidão de sulcos e porque ele transitava por eles com uma culposa infração do preceito da coerência. Pensei, então, que o argumento maior de seu desejo não fosse uma razão, senão uma paixão: o medo da liberdade própria da mensagem de Jesus – bruta (e não sutil) liberdade que se testemunha como uma avalanche ou um desmoronamento – e que, portanto, a simplicidade bestial de ser livre não lhe deixava nas mãos um mecanismo e uma simetria para a fé. Conheci naquela noite um insuportável que não se suportava a si mesmo nem ser nem estar nem crer. E dessa desesperança é que quero falar-te, e de outras; ainda que, talvez, sempre das mesmas.
[1] Sem tormenta, até teria jurado contar as estrelas com esse mesmo sistema teológico.
Texto da @monjaguerriler traduzido pela @anacrisgontijo, contribuição da galera do twitter
1 comentários:
Obrigada!!! Beijos!
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