Quarta-feira, Outubro 05, 2011

Revolucionários Entrevados

Há tempos não escrevo, mas muitos pensamentos avulsos pairam em minha cabeça freqüentemente. A dificuldade talvez seja por isso no papel. A verdade é que vivemos em uma época, em que, bombardeados por uma quantidade torrencial de informações, temos dificuldades de concentração. Isso que digo é tanto um desabafo quanto um prólogo do que venho a dizer.
Hoje em dia nas diversas mídias sociais que utilizamos percebemos que a nossa geração é uma geração indignada. Indignada com diversos temas de grande importância para a sociedade: pedofilia, aborto, corrupção política, utilização da verba pública, dentre outros. Com certeza é com alegria que observamos essa juventude; há qual muitos chamam de burra, desinformada e facilmente influenciável; tão engajada nesse propósito de combater esses "problemas modernos".
Infelizmente o que nos causa espanto e acaba dando razão aos que nos chamam de burros, desinformados e influenciáveis são as formas utilizadas para expressar essa indignação: muito se utiliza os famosos memes ou correntes através de emails, facebook, twitter etc. Não estou muito certo de que mudar minha foto no facebook ou postar a medida dos meus pés em polegadas conscientize mais o mundo do abuso infantil ou do câncer de mama. Nao é pagando 200 reais para assistir minha banda favorita que estarei lutando "por um mundo melhor".
São nessas atitudes que vejo uma juventude preguiçosa, que quer ver o mundo transformado na comodidade do sofá de sua casa através de seus laptops, tablets e smartphones. Revolucionários entrevados que já agem com desdem e desesperança da possibilidade de alguma mudança real nesse mundo.
Parabéns a nós jovens que queremos acabar com o abuso infantil com seus desenhos animados favoritos mas treme de medo ao passar do lado de uma criança suja por poder ser um pivete.
Parabéns a nós jovens queremos conscientizar do câncer de mama com nossas polegadas virtuais mas não temos um segundo para visitar o INCA por exemplo.
Faz-se necessário levantar toda a esperança contra a desesperança, nos mover da comodidade de nossas tecnologias (não menosprezando o poder da internet) e lutarmos com verdadeira coragem e ousadia dos grandes exemplos da história.
Desentrevemos nossas colunas jovens antes que elas envelheçam não pelo tempo, mas por falta de uso.

Segunda-feira, Novembro 01, 2010

Meus Votos de Casamento

Cheguei à conclusão que de tudo que já escrevi na minha vida, até o presente momento, esse é o texto mais difícil. Não sei fazer votos, não sei fazer juramentos, admito: tenho medo deles. Tenho medo de não conseguir cumpri-los. Sábio foi o Pregador em Eclesiastes quando disse: Melhor é que não votes do que votares e não cumprires. Mas ao pensar em você meu amor me deparei com a crueza da realidade: do que vale amar se não posso fazer juras eternas de amor? De que vale estar ao seu lado se não posso prometer que quero envelhecer com você? Nesse momento não vou seguir o conselho da sabedoria: Assumo os riscos de prometer. Prometo ser fiel a você até que a morte nos separe, porque estou mais preocupado em descobrir com você as novidades diárias do nosso amor. A força do nosso amor me move a querer te fazer a pessoa mais feliz do mundo. Mesmo quando a minha paciência acabar, eu prometo contar até dez antes de falar ou fazer algo que te desagrade. Prometo todo dia acordar ao seu lado te dando a certeza de que você fez a escolha certa porque eu todo dia agradeço a Deus por ter me dado a pessoa certa. Já dizia Renato Russo: o amor é estar-se preso por vontade.  Estou preso em você e dessa prisão eu nunca mais quero sair. Chega a ser redundante dizer que te amarei em todas as circunstâncias da vida: na doença ou na saúde, na pobreza ou na riqueza, na chatice ou na candice, na desilusão ou na vitória, na solidão ou na comunhão, quando todos se forem “I’ll be there” eu estarei lá com você. Beatriz, quero compartilhar tudo com você. Talvez eu não deva contar tudo pra você (os casais mais experientes que o digam), mas apenas com você eu posso e vou sentir tudo, viver tudo, experimentar tudo.  Deitar você no meu ombro mesmo quando você chora a toa, te entender quando você sentir falta dos seus pais, compartilhar do sabor agridoce de te amar. Mas tudo que eu disser pra você minha Beatriz, minha esposa, é muito pouco. Amar-te é sagrado, e aquilo que é sagrado não é possível definir, afinal: nem olhos ouviram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração de homens o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas só posso seguir todos esses votos se eu seguir um sábio conselho que me deram: quero convidar Jesus pra entrar no nosso lar. Ser o alicerce e o caminho que juntos iremos perseguir, pois é só com a ajuda dEle que posso cumprir meu voto. Não tenho mais medo de prometer isso tudo porque o verdadeiro amor lança fora todo medo. Te Amo Beatriz Koppe pra sempre e sempre meu eterno amor.

Lidos para o amor da minha vida no dia 30/10/10

Quinta-feira, Setembro 16, 2010

Políticamente Corretos em um País de Despolitizados



Chegada as eleições mais uma vez percebe-se a ignorância do povo evangélico. Já diziam em minha infância que política, mulher e religião não se discutem. Mas por favor: do que serve minha massa encefálica se sou obrigado a concordar com tudo que me dizem? Não é a toa que o título desse blog é "Penso. Logo, creio”.O ato da minha fé é inerente a minha capacidade de raciocinar.
As portas de mais uma eleição presidencial sou bombardeado via e-mail, MSN e o cacete a quatro com o mal-fadado vídeo do Pr. Piragine. Não estou aqui para falar sobre o vídeo em si, mas sobre a minha opção de discordar dele. Ora, em um ambiente de absolutismos que são vomitados domingo após domingo de trás de seus bunkers  púlpitos de mármore e/ou madeira, somos obrigados a digerir tamanha ofensa sem o direito de reagir. Pensar diferente é um crime, como já disse Rubem Alves, a heresia é uma questão de poder. Essa é a filosofia/teologia que o povo evangélico em geral acostumou-se. Os ditames são dados pelos que tem o poder eclesiástico/burocrático.
E nisso entra o discurso do Rafinha e do Lobão na entrevista acima: vivemos numa época tão higienizada que discordar é o mesmo que desrespeitar! Não há abertura ao diálogo e no fim das contas voltamos à velha máxima daquilo que há de pior no evangeliquês tupiniquim "não toque no ungido do Senhor". Afinal, ele mesmo disse que orou muito pra fazer aquilo (como se houvesse um medidor de espiritualidade e a barrinha enchesse de acordo com o tempo que você orou). Cortam-se nossas válvulas de escape e resta-nos conversarmos com nossos espelhos. Talvez no fundo seja o que queremos em nossas igrejolas: pequenos espelhos sorridentes que concordem com tudo que dizemos, pois não temos coragem de encarar o diferente, o contrário.
Na massa igrejeira despolitizada fala-se tão pouco de política que, quando aparece um que seja para defender algo tão sem fundamento, não há espaço para diálogo e conversa. Só nos resta concordar, sermos politicamente corretos para que possamos manter a famigerada comunhão em uniformidade sem coragem de encarar a diversidade, e no final das contas chegar em casa, olhar  no espelho e dizer: é... Eu sou um bundão!!!

Segunda-feira, Agosto 09, 2010

A Nova Reforma Protestante

por Ricardo Alexandre (Revista Época)


"Não há como ignorar essa matéria, posso dizer que faço parte disso, apesar de muitos blogs já terem republicado ponho o texto na íntegra aqui também."

Rani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.


Irani Rosique (crédito: Revista Época)


Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade”. Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.

Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”

Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja” desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca – e a ele adicionou o complemento “e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar”. Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da“religiosidade institucionalizada”. Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: “Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira.”

Essa espécie de “nova reforma protestante” não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. “As instituições estão todas sub judice”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. “Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita.”

Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. “Acabamos nos perdendo no linguajar ‘evangeliquês’, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. “É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo.”

Miguel Uchôa e bispo Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife (crédito: Revista Época)


Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante”. Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de “igreja emergente” desde o final da década de 1990. “O importante não é a forma”, afirma Uchôa. “É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis (leia o quadro na última pág.). Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário – e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de “palestras” e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

“Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai, mamãe, filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô fora e A jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”

Outro ponto em comum entre esses questionadores é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. “É lisonjeador saber que atraímos gente com formação universitária e que nos consideram ‘pensadores’”, afirma Ricardo Agreste. “O grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência, é de ética e honestidade.” Segundo ele, a velha discussão doutrinária foi substituída por outra. “Não é mais uma questão de pensar de formas diferentes a espiritualidade cristã”, diz. “Trata-se de entender que há gente usando vocabulário e elementos de prática cristã para ganhar dinheiro e manipular pessoas.”

Esse rompimento da cordialidade entre os evangélicos históricos e os neopentecostais veio a público na forma de livros e artigos. A jornalista (evangélica) Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus (Editora Mundo Cristão), sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro (Mundo Cristão), retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à personalidade e o esquerdismo político. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez, definiu como “macumba para evangélico” as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.

Tais críticas, até pouco tempo atrás, ficavam restritas aos bastidores teológicos e às discussões internas nas igrejas. Livros mais antigos – como Supercrentes, Evangélicos em crise, Como ser cristão sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Cristão) – eram experiências isoladas, às vezes recebidos pelos fiéis como desagregadores. “Parece que a sociedade se fartou de tanto escândalo e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há tempos”, diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Cristão.

O pastor Kivitz – que publicou pela Mundo Cristão seus livros Outra espiritualidade e O livro mais mal-humorado da Bíblia – distingue essa crítica interna daquela feita pela mídia tradicional aos neopentecostais “A mídia trata os evangélicos como um fenômeno social e cultural. Para fazer uma crítica assim, basta ter um pouco de bom-senso. Essa crítica o (programa) CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho”, diz ele. “Eu faço uma crítica diferente, visceral, passional, porque eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais dos jornais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.”

A necessidade de se distinguir dos neopentecostais também levou essas igrejas a reconsiderar uma série de práticas e até seu vocabulário. Pastores e “leigos” passam a ocupar o mesmo nível hierárquico, e não há espaço para “ungidos” em especial. Grandes e imponentes catedrais e “cultos shows” dão lugar a reuniões informais, em pequenos grupos, nas casas, onde os líderes podem ser questionados, e as relações são mais próximas. O vocabulário herdado da teologia triunfalista do Antigo Testamento (vitória, vingança, peleja, guerra, maldição) é reconsiderado. Para superar o desgaste dos termos, algumas igrejas preferem ser chamadas de “comunidades”, os cultos são anunciados como “reuniões” ou “celebrações” e até a palavra “evangélico” tem sido preterida em favor de “cristão” – o termo mais radical. Nem todo mundo concorda, evidentemente. “Eles (os neopentecostais) é que não deveriam ser chamados de evangélicos”, afirma o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. “Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos.”

Um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico no Brasil, o sociólogo Ricardo Mariano (PUC-RS), vê como natural o embate entre neopentecostais e as lideranças de igrejas históricas. Ele lembra que, desde o final da década de 1980, quando o neopentecostalismo ganhou força no Brasil, os líderes das igrejas históricas se levantaram para desqualificar o movimento. “O problema é que não há nenhum órgão que regule ou fale em nome de todos os evangélicos, então ninguém tem autoridade para dizer o que é uma legítima igreja evangélica”, afirma.

Procurado por ÉPOCA, Geraldo Tenuta, o Bispo Gê, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu não entrar em discussões. “Jesus nos ensinou a não irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes”, diz ele. “Desde o início, éramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admitíamos rock no altar, depois porque não tínhamos usos e costumes. Isso não nos preocupa. O que não é de Deus vai desaparecer, e não será por obra dos julgamentos.” A Igreja Universal do Reino de Deus – que, na terceira semana de julho, anunciou a construção de uma “réplica do Templo de Salomão” em São Paulo, com “pedras trazidas de Israel” e “maior do que a Catedral da Sé” – também foi procurada por ÉPOCA para comentar os movimentos emergentes e as críticas dirigidas à igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: “Sem resposta”.

O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. “Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor”, diz. “Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel.”

A maior parte da movimentação crítica no meio evangélico acontece nas grandes cidades. O próprio pastor Kivitz afirma que “talvez não agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rincão do interior” e que o diálogo livre entre púlpito e auditório passa, necessariamente, por uma identificação cultural. “As pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”, diz ele. “As dúvidas delas são as minhas dúvidas. Minha postura é, juntos, buscarmos respostas satisfatórias a nossas inquietações.”

Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. “O destino desses líderes será ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas”, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado”, diz ele. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou torná-lo mais interessante ou vendável.”

O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, músicos, líderes religiosos e leigos decidirem criar seus próprios sites, portais, comunidades e blogs. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da fé – um “documento”, “autenticado” pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” – propagou-se pela rede, angariando toda sorte de comentários. Outro vídeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede. Uma cópia da sentença do juiz federal Fausto De Sanctis condenando os líderes da Renascer Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. “Vergonha alheia em doses quase insuportáveis” foi o comentário mais ameno entre os internautas.

Sites como Pavablog, Veshame Gospel, Irmãos.com, Púlpito Cristão, Caiofabio.net ou Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela ética, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “O $how tem que parar” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.

A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos tão diversos como teologia, política, televisão, cinema e música popular. O trânsito entre o “secular” e o “sagrado” é uma das características mais fortes desses novos evangélicos. “A espiritualidade cristã sempre teve a missão de resgatar a pessoa e fazê-la interagir e transformar a sociedade”, diz Ricardo Agreste. “Rompemos o ostracismo da igreja histórica tradicional, entramos em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso.”

Em São Paulo, o capelão Valter Ravara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra cursos de conscientização ambiental em igrejas, escolas e centros comunitários. “É a proposta de Jesus, materializar o amor ao próximo no dia a dia”, afirma Ravara. “O homem sem Deus joga papel no chão? O cristão não deve jogar.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia verde, com laminação biodegradável, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.

A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o prefácio da Bíblia verde. Sua candidatura à Presidência da República angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas não o apoio formal da Assembleia de Deus, denominação a que ela pertence. A separação entre política e religião pregada por Marina é vista como um marco da nova inserção social evangélica. O vereador paulistano e evangélico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do político cristão é “expressar o Reino de Deus” dentro da política. “É o oposto do que fazem as bancadas evangélicas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denominação e sustentar impérios eclesiásticos”, diz ele.

O raciocínio antissectário se espalhou para a música. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem apenas como “música feita por cristãos”, não mais como “gospel”. Eles rompem os limites entre os mercados evangélico e pop. O antissectarismo torna os evangélicos mais sensíveis a ações sociais, das parcerias com ONGs até uma comunidade funcionando em plena Cracolândia, no centro de São Paulo. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento ético, e não dentro das quatro paredes de um templo.”

A teologia chama de “cristocêntrico” o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das mãos da estrutura da igreja – visão conhecida como “eclesiocêntrica” – e devolvê-lo para a imaterialidade das coisas do espírito. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, porém, dirigida para a própria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: “Marx e Freud nos convenceram de que, se alguém tem fé, só pode ser um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências. Mas hoje gostaríamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espaço para contribuir com a construção de uma alternativa para a civilização que está aí. Uma sociedade que todo mundo espera, não apenas aqueles que buscam uma experiência religiosa”.

Vi no Pavablog

Sexta-feira, Junho 11, 2010

Anti - Teologia

Não estou levantando uma bandeira contra a teologia seja ela acadêmica, pastoral ou popular. Pelo contrário: aponto minha vasta munição contra todo pensar e construção teológica que se preocupe tanto em justificar as ações de Deus que esquece de humanizar a vida com Deus.
Há tantas pessoas: líderes eclesiásticos, pastores, teólogos, cristãos em geral que se preocupam em defender os pilares que sustentam um suposto determinismo teológico; que se preocupam na manutenção de um Deus poderoso como contraparte de um Deus amoroso, ressuscitando a discussão de séculos atrás entre Pelágio e Agostinho; que se preocupam em tradicionalismos moribundos que não fazem sentido na sociedade atual em defesa de suas ortodoxias, mas que no fundo são argumentos favoráveis ao "status quo"; como se Deus pecisasse de algum advogado de defesa.
Os que sofrem com isso são os excluídos, os pobres, as minorias perseguidas. Todos esses foram representados por Jó, que na sua dor foi acusado de estar em pecado, acusado de ter falhado com Deus. Assim como Jó,,no limiar da sua dor, procurando resposta e sentido para seu sofrimento, somos vitimados por essa Anti-Teologia que está mais preocupada em defender Deus do que defender o humano.
Ela é Anti-Teologia extamente porque quando lemos as Sagradas Letras com o olhar do excluído percebemos que, como já disse Feuerbach: "toda teologia é antropologia". 
Sim, nossas construções teológicas só serão realmente um falar de Deus quando ela for uma teologia pé-no-chão, uma teologia que se preocupa com/para o outro; uma teologia que antes de dizer quem é Deus diz quem é o homem; uma teologia que ao invés de demonizar o mundo, sacraliza-o.
Portanto nossas vozes devem se levantar contra todo discurso que desumaniza que é anti-teológico, contra todo discurso que está apenas preocupado em manter o Status Quo, afinal quando os amigos de Jó disseram que Jó estava em pecado eles traziam o discurso daqueles que eram detentores dos valores economicos, religiosos e politicos daquela época, não se preocupavam com a dor do pobre, e sim com triunfo deles.
A anti-teologia é o discurso que parece defender um Deus todo-poderoso e amoroso mas na verdade serve para calar os que se levantam com os movimentos reformistas/revolucionários na sociedade e na Igreja.
Os pobres e excluídos, os filhos de Jó, nesse momento fazem coro ao poeta da MPB : " Pai, afasta de mim esse cálice".

Sexta-feira, Março 19, 2010

Músicas que Deveriam Tocar no Culto (Parte 10)

Caçador de Mim - Milton Nascimento


"Abrir o peito a força numa procura"

Quarta-feira, Março 17, 2010

Como encontrar o Divino? (Uma tentativa de resposta)

Esse texto nasceu na tentativa de responder uma questão levanta lá no formspring pelo meu brother Bruno do Atravessamentos.

"Certa vez um homem, dos tempos em que Israel era governada por reis, queria saber o que fazer para encontrar a felicidade com Deus, ele foi a um sacerdote e perguntou: - como faço pra agradar a Deus?
O sacerdote respondeu: - vá sempre ao Templo, entregue o dízimo, ofereça um cordeiro sem mácula em sacrifício e será feliz.
Insatisfeito com a resposta o homem foi procurar um profeta e lhe fez a mesma pergunta e recebeu a seguinte resposta: - dê auxílio ao pobre, a viúva, ao órfão e ao estrangeiro e assim agradará a Deus.
Ainda insatisfeito foi procurar um sábio perguntou: - como faço pra encontrar a Deus e ser feliz?
O sábio disse: - vai come teu pão, bebe teu vinho e goza os prazeres da vida com a mulher que ama.
Aquele homem voltou triste pra sua casa pois nenhuam resposta foi satisfatória pra ele."

A pergunta existencial-filosófica sobre como encontrar a Deus tem tantas respostas quanto pessoas no mundo. Alguns dirão que o caminho é a piedade (como o sacerdote), outros que é a justiça social (como o profeta) e outros que é simplesmente viver a vida (como o sábio). Todos os três estão corretos mas suas respostas são  incompletas pro si só como aqueles cinco cegos que apalpavam o elefante.
A piedade por si só gera catarse extática e alienação, a justiça por si só é engajamento vazio e infundado, e a cotidianidade é fútil, ilusória e, como diz o autor de Eclesiastes, pura vaidade.
Dentro de uma perspectiva cristã a resposta para o divino é Cristo encarnado, morto e ressuscitado. Mas em uma perspectiva ecumênica e globalizante a resposta é o amor, como já dizia Leon Tolstói: "Onde existe amor, Deus aí está".
Portantoonde há amor acontecem práticas piedosas senão a fé cristã torna-se apenas um novo gnosticismo; acontece justiça senão ela é apenas um devir, uma realidade além túmulo; e acontece a cotidianidade senão a fé é apenas efêmera sem sentido.
Nenhuam dessas propostas podem levar a Deus, são apenas tentativas e riscos porque nossa teologia smepre é penúltima, nunca definitiva. Resta-nos lançarmo-nos nesse Misteryum Absconditus e silenciarmos.

Terça-feira, Março 02, 2010

Nietzsche e Jesus: Dois Extremos Que Se Tocam?

Todo crente é de certo modo um ateu, pois a afirmação da sua crença implica quase sempre a negação de outras crenças e deuses; mais claramente: para ser cristão, é preciso negar ou ignorar o islã, o judaísmo, o budismo, o hinduísmo, a umbanda, o panteísmo, o zoroastrismo etc.; e vice-versa; ou seja, para acreditar em Javé, por exemplo, é preciso desacreditar outros deuses com a mesma autoridade ou dignidade: Zeus, Apolo, Amon, Crom, Thor, Odin, Baal, Alá, Shiva, Brahma, Vishnu, Ogum, Ísis, Iansã, Jaci e outros tantos. Por isso, o “meu Deus” e a “minha religião“ excluem a crença, o deus e a religião dos outros, pois só a “minha fé” e o “meu Deus” são verdadeiros; tudo mais é falso. Afinal, a crença, a religião e o deus dos outros não passam de superstições, crendices, coisas diabólicas etc;
Dizer que só existe um deus, o “meu Deus”, é tão insensato quanto dizer que só existe um idioma, o “meu idioma”, um país, o “meu país” etc., como se só “eu” existisse;
Somos cristãos pelas mesmas razões que somos brasileiros e não franceses ou italianos e, pois, falamos português e não francês ou italiano: somos herdeiros da colonização e toda tradição de lutas, conquistas e violências que nos precedeu, isto é, uma história de extermínio de povos, culturas, mitos, línguas, religiões e deuses. Trata-se, portanto, de algo acidental: se fôssemos colonizados pelos chineses, seríamos budistas e falaríamos chinês ou mandarim; se fôssemos colonizados pelos árabes, seríamos muçulmanos e falaríamos árabe. O deus ou deuses de hoje são a mitologia e as fábulas de amanhã;
Toda doutrina, política, moral ou religiosa que pressupõe ou propõe unidade é falsa, tirânica, má e contrária à natureza e à vida, pois a vida, e tudo a que se refere, é múltipla, plural, diversa e em permanente mutação; é preciso presunção, ingenuidade e intolerância para crer assim;
Em geral toda forma de violência tem algum bom pretexto ou uma bela e sonora metáfora; em nome de Deus, por exemplo, foram cometidas as mais terríveis violências: a noite de São Bartolomeu, o extermínio dos cátaros (ou albigenses), as cruzadas, a inquisição, os massacres patrocinados por Moisés (Êxodo, 32: 27 e 28) ou Josué (6:21) e seus atuais seguidores: Bin Laden, Bush, entre outros; Deus e o diabo são inocentes, mas não quem os invoca;
O cristianismo (o islã etc.) depende do pecado e do pecador tal qual os presídios, de presos, os cemitérios, de cadáveres, os senhores, de escravos; o cristianismo (re) inventou o pecador (e o pecado) não para libertá-lo, mas para escravizá-lo (a expressão “servo de deus” não existe por acaso) e manipulá-lo; enfraquecê-lo, portanto; pior: pretende ser a cura da doença por ele criada: o pecado;
Crer em Deus significa crer naqueles que se dizem conhecê-lo ou representá-lo; logo, submeter-se à vontade de Deus significa submeter-se à vontade daqueles que se dizem representá-lo;
Se cães e gatos pudessem representar seus deuses, certamente os representariam na forma de cães e gatos, e com variações: um pastor na forma de pastor etc. (Xenófanes, revisto); também assim são os homens, que criam seus deuses à sua imagem e semelhança, os quais variam no tempo e no espaço, inevitavelmente;
De acordo com um crente, todos, à exceção daqueles que compartilham de sua fé, estão no pecado e vão para o inferno ou algo assim; há hoje tantas denominações (algumas autênticas empresas comerciais) e doutrinas tão díspares e contraditórias (uma nova Babel) que já não temos certeza se o cristianismo é uma religião monoteísta e se ainda se venera o Cristo ou o dinheiro;
Se Deus fosse julgado por um tribunal isento, seria fácil acusá-lo e difícil absolvê-lo, porque, ou bem seria condenado por omissão: deixar que toda sorte de injustiças, crimes e desastres aconteçam sem nada fazer, embora pudesse fazê-lo e evitá-lo; ou bem seria condenado por ação: se Ele é onipotente, onipresente e onisciente, que tudo sabe, tudo pode e tudo vê, então, todas as violências e crimes são obra sua, e os homens são apenas instrumentos de sua obra, boa ou má; afinal, os homens atuariam segundo a sua fria e calculada programação, tal qual a morte de seu próprio filho: um homicídio doloso e premeditado;
Erros, decepções, traições, doenças e mortes, por mais que nos causem dor e sofrimento, são inevitáveis e são, pois, a própria vida; tal qual os animais e plantas, nascemos, crescemos, adoecemos e morremos inevitavelmente; como os frutos de uma árvore, que precisam amadurecer, cair, apodrecer e soltar suas sementes para que outras árvores e frutos germinem e frutifiquem, assim também são os homens: nascemos para a morte e morremos para a vida (Heráclito). Convém, por isso, enfrentar a vida, e tudo de bom e ruim que ela implica, com dignidade, galhardia e humor inclusive;
Um Deus que quisesse ser adorado e não apenas temido jamais nos tentaria ou corromperia com promessas de recompensa (céu, vida eterna etc.) nem nos chantagearia com ameaças de morte, inferno etc.; nem tampouco incentivaria a subserviência, e, pois, a dissimulação, nem condenaria a crítica e a rebeldia necessárias; um Deus assim não precisaria de servos, nem estes Dele;
Eu só acreditaria num Deus que não fosse tirânico, ciumento, mesquinho, injusto, cruel, vingativo, misógino, homofóbico, racista. Eu só acreditaria num Deus que fosse grande e justo e maduro e sábio o bastante para saber amar as pessoas como elas realmente são e não como Ele gostaria que elas fossem; eu só acreditaria num Deus capaz de perceber o que há de grande e pequeno e divino em cada um de nós para além de todo preconceito; um Deus, enfim, que tratasse judeus e palestinos, crentes e ateus, homens e mulheres, hétero e homossexuais, prostitutas e criminosos com a mesma dignidade, com o mesmo respeito; afinal, ainda que tenhamos o dom de profetizar e conheçamos todos os mistérios e toda a ciência, ainda que tenhamos tamanha fé, a ponto de transportar os montes, se não tivermos amor, nada seremos (Coríntios 1: 13);
A distinção entre os atos bons e maus, entre os atos de deus e do demônio, e, portanto, a distinção entre deuses e demônios, não preexiste à interpretação, mas é dela resultado;
Jesus tinha razão: o reino de Deus - e também do demônio, pois são o verso e reverso de uma mesma moeda, tal qual alto e baixo, direita e esquerda, bem e mal, motivo pelo qual um não existe sem o outro - está dentro de nós (Lucas, 17:21); Nietzsche também: não existem fenômenos religiosos, mas apenas uma interpretação religiosa dos fenômenos!

Quinta-feira, Fevereiro 25, 2010

UM ATEU CANTA NO CORO DA IGREJA


Brian Eno, que não crê em Deus, disse:
"Faço parte de um coral gospel. Sabem que sou ateu, mas são muito tolerantes. Em última análise, a mensagem da música gospel é a de que tudo vai ficar bem.
Se você ouvir milhões de discos gospel -- eu ouvi -- e tentar destilar o que existe de comum a todos eles, é essa sensação de que podemos triunfar de alguma maneira.
Também envolve a perda do ego, dizendo que se pode vencer ou superar as coisas abrindo mão do individualismo e se tornar parte de algo melhor.
Ambas as mensagens são completamente universais e pouco se relacionam à religião ou a uma dada religião. Relacionam-se a atitudes humanas básicas, e você pode ter essa atitude, e portanto cantar gospel, mesmo que não seja religioso".
Brian Eno, 61 anos, é o produtor que revolucionou a chamada música pop nos anos 70 do século passado.
Brian captou parte do Evangelho.
E por que captou só parte do Evangelho?
A ( ) O ateísmo de Brian Eno o impede de ver TODO o Evangelho.
B ( ) Os evangélicos só mostram PARTE do Evangelho.

 

Israel Belo de Azevedo no Prazer da Palavra

Terça-feira, Fevereiro 16, 2010

Carta a Um Homem que Pede que Eu o Ensine Como Orar

Caro Z.,
Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro.
Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos – e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse.
Você pergunta como e por que uma pessoa sem religião – “sem um ato espiritual, que pisou uma igreja somente em seu batismo e não tem o hábito de orar” – pode prosperar. O que posso dizer é que variações deste questionamento aparecem constantemente ao longo do Antigo Testamento (por exemplo, no salmo 73).
O que o Novo Testamento faz, como em todos os assuntos, é reverter a pergunta: porque uma pessoa sem Deus não deveria prosperar? Deus derrama o seu sol e faz chover sobre justos e injustos. Melhor ainda: porque uma pessoa com Deus deveria prosperar? Na verdade, há inequívocas indicações no Novo Testamento de que seguir Jesus é seguir o seu caminho de renúncia, sofrimento, anulação e desintegração. A teologia da prosperidade não encontra qualquer brecha nesta boa nova.Cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. O que está dito aqui é “quem quiser me seguir negue-se a si mesmo tome a sua cruz” e “basta a cada dia o seu mal”. Ou ainda, minha expressão favorita, encontrada em Atos 14:22: “por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus”.
Será então verdade que o cristianismo é um movimento essencialmente pessimista? Sim e não. O que os seus primeiros proponentes deixam claro é que quem quiser seguir Jesus (e ele mesmo deixou claro que ninguém é obrigado!) deve estar disposto a deixar tudo para trás a fim de assumir um novo caminho. A estranhíssima vocação de um seguidor de Jesus é encontrar a paz mitigando o sofrimento dos outros, e não o seu próprio.
Para Jesus e os demais autores do NT, o problema do mundo dos homens é que ele é totalmente implacável; precisamente como animais, as pessoas só buscam solução para os seus próprios apetites, deixando pouco ou nenhum espaço para misericórdia, para a inclusividade e para o respeito interpessoal. É justamente porque o mundo é implacável que você foi demitido e ainda não encontrou espaço para voltar ao mercado. Na grelha do capitalismo, cair para o fogo aos 56 anos de idade é considerado trajeto sem volta.
A boa nova, como apresentada por Jesus, é que o reino de Deus foi inaugurado, e nesta nova realidade todos devem trabalhar de forma voluntária e consistente para que o mundo se torne menos implacável. Neste reino todos devem dar um passo além da carne (ou seja, dar um passo além das limitações da natureza humana), e aprender a imitar a Deus em sua inclusividade e generosidade. Arrepender-se é mudar o mundo.
Basta olhar ao redor para ver que este é um processo que está longe de estar sendo implantado satisfatoriamente. Mais do que isso, Jesus deixou suficientemente claro que a boa nova é de tal natureza que não devemos esperar ser nós mesmos beneficiados por ela; o que cada um pode esperar é meramente fazer sua parte para que o mundo se mostre menos implacável e injusto para os outros. O mundo dos afetados pelas nossas omissões é o único que podemos mudar.
Desde o tempo de Jó uma importante linha de pensamento dentro da Bíblia defende a idéia de que as coisas não acontecem neste mundo a partir de uma lógica de retribuição. Neste mundo não é que os bonzinhos e esforçados são premiados e os malvados punidos e confundidos. Como deixa claro o próprio livro de Jó, o mistério é mais profundo e não há respostas fáceis para o problema do sofrimento.
O escândalo do Novo Testamento está em sugerir que não apenas a religião não é necessária para sermos beneficiados pela graça divina, mas que cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. Isso se faz quando nos arrependemos – isto é, quando passamos a imitar Deus em sua disponibilidade assombrosa de dar e dar-se.
Na lógica exigente da boa nova é por minha culpa que você está desempregado, e amenizar as durezas da sua condição é de minha única responsabilidade. Não posso pedir que Deus faça isso, e não posso esperar que outra pessoa o faça.
Numa palavra, não posso ensinar você a orar, mas posso oferecer um abraço, um beijo e um lugar à mesa. Mande seu telefone que quero ligar pra gente conversar.

Paulo Brabo na Bacia das Almas
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